Empregos e Qualificações Verdes - Parte I

Empregos e Qualificações Verdes - Parte I
Convergência entre Inclusão Socioprodutiva e Economia Verde
A inclusão produtiva tem se consolidado como um dos principais desafios das políticas públicas nos dias atuais, especialmente diante da persistência de desigualdades sociais que limitam o acesso de grande parte da população às oportunidades de trabalho, renda e desenvolvimento econômico. Especialmente no caso de pessoas em situação de vulnerabilidade, existe uma série de empecilhos que limitam esse acesso, como baixa escolaridade, discriminação, ausência de moradia formal, dentre outros problemas.
Por sua vez, os efeitos do aquecimento global chegaram sem pedir licença, cada vez mais levando casas, plantações e sonhos. Apesar de este tema ter entrado com certa importância na agenda da sociedade, não significa que ações, à altura dos desafios que nos cercam, tenham sido levadas a cabo. Há uma enorme gradação de posturas, conhecimentos e capacidades de atuação. Isso dificulta, per se, qualquer iniciativa coordenada que se pretenda efetiva nas mais diferentes escalas, a nível global, nacional, subnacional. Tanto a mudança climática quanto a inclusão produtiva são chamadas pela literatura especializada como wicked problems (RITTEL e WEBBER, 1973), pois consistem em problemas multidimensionais de difícil resolução, exigindo assim abordagens integradas, que articulem políticas em diferentes escalas de atuação, lidando assim com a complexidade intrínseca desses desafios. Não existem respostas simples para casos imbricados.
A agenda climática e de transição sustentável, apesar das resistências ideológicas e econômicas históricas, e da dificuldade das soluções, entrou na pauta de boa parte dos governos, da imprensa, e de parcela importante da sociedade. Ora, com o número de tempestades catastróficas, secas históricas e ondas de calor recorde aumentando rapidamente a olhos vistos, torna-se cada vez mais difícil negar dados e fatos tão evidentes e assustadores trazidos pelo aquecimento global. Isso ocorre depois de mais de 50 anos de alertas e discussões junto à Organização das Nações Unidas (ONU) e a outros fóruns de igual relevância. Aquilo que parecia inócuo e longínquo tornou-se uma verdadeira ameaça à espécie humana e ao mundo que conhecemos.
Mais do que uma catástrofe iminente, que eventualmente pode se tornar um convite à inação e ao fatalismo, a transição sustentável deve ser vista sobretudo como uma grande oportunidade de inclusão. O abandono dos combustíveis fósseis, as mudanças no modo de produção e a redução de emissões de CO2 como um todo vão exigir uma enorme quantidade de trabalho, de forma que cada setor deve possuir habilidades específicas que não estão necessariamente disponíveis na quantidade exigida.
A Rede pela Inclusão Socioprodutiva — RISO identifica que essa pode ser a porta de saída da precariedade em que vive grande parcela da população brasileira. Aqueles que almejam melhorar de vida, voltar ao trabalho, aumentar sua renda, podem encontrar nas atividades profissionais relacionadas à economia verde a chance de romper um ciclo vicioso de pobreza que atravessa gerações. Esse contexto também permite que aqueles que já possuem um trabalho verde pouco reconhecido tomem consciência do seu real valor para a sociedade, deixando a informalidade e as condições não dignas às quais se encontram expostos. A RISO preconiza uma postura positiva e propositiva que passe ao largo da apatia e da inoperância que insiste em se perpetuar.
É preciso destacar que não se trata somente da geração de empregos para quem mais precisa: medidas de inclusão devem ser elaboradas de modo a implicar na ampliação das capacidades dos beneficiários, no acesso a oportunidades amplas e variadas e, sobretudo, na autonomia dos participantes. Paralelamente, ações para mitigar a mudança climática não devem se limitar à boa vontade, à existência de conhecimento técnico ou a recursos disponíveis, é necessário um elevado grau de coordenação das autoridades, conscientização da sociedade, engajamento empresarial, dentre outros elementos de suma importância, de modo a tornar as ações de adaptação e mitigação à mudança do clima minimamente efetivas. É preciso ter em conta que tanto a inclusão socioprodutiva quanto a mitigação do clima são problemas complexos.
É com essa mudança de abordagem, deixando de lado as ações descoordenadas e pouco efetivas para agir com senso de urgência, coesão e oportunidade, que queremos nos posicionar. Propomos um pacto amplo de transformação social, que aja de modo a encontrar as sinergias entre a agenda da mudança climática e da inclusão socioprodutiva. Ora apoiando a formulação de uma política local de qualificação verde, ora coordenando iniciativas entre diferentes entes federativos, adaptando casos bem-sucedidos a outras realidades ou até mesmo dando respaldo técnico à criação de indicadores de desempenho de uma política incipiente. Damos o devido valor aos planos nacionais de larga escala, bem como aos programas locais das prefeituras e da sociedade civil. Todavia, é notória a dificuldade de conectar e potencializar os resultados de políticas em diferentes âmbitos e escopos de atuação.
A RISO está falando de empregos e qualificações verdes, pois acredita que enfrentar a crise climática e combater a desigualdade social não são agendas concorrentes, mas partes inseparáveis de um mesmo projeto de futuro. Mais do que responder às emergências do presente, queremos contribuir para a construção de um novo paradigma de desenvolvimento, no qual dignidade, trabalho, sustentabilidade e justiça social caminhem juntos. Essa é a nossa missão e nosso manifesto à ação.
Afinal, o que são empregos e qualificações verdes? Onde tudo começou?
Quando se fala em empregos verdes, é comum imaginar algo distante: painéis solares em desertos áridos, turbinas eólicas em locais de difícil acesso, engenheiros ambientais em laboratórios sofisticados. Essa imagem existe, mas é incompleta. E é justamente essa incompletude que torna a conversa sobre empregos verdes tão urgente para quem trabalha com inclusão produtiva no Brasil. E ainda mais em se tratando de qualificação: como se preparar para trabalhar diretamente dando sua contribuição pessoal contra a mudança climática em termos profissionais?
O marco conceitual dos empregos verdes ganhou forma definitiva em 2008, quando as discussões sobre o aquecimento global encontravam-se relativamente consolidadas. O documento de seu lançamento chama-se "Green Jobs: Towards Decent Work in a Sustainable, Low-Carbon World" e foi escrito por um consórcio de organizações, das quais as de maior relevância são a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Lançado simultaneamente à Crise Financeira de 2008, a agenda de empregos verdes ganhou impulso adicional pelo seu momento histórico. Os meses e anos que se seguiram foram marcados por quebras bancárias, redução do produto econômico dos países e grandes altas no desemprego. Uma agenda de transição climática com foco nos empregos verdes seria uma saída honrosa ao caos econômico do final dos anos 2000, irresponsavelmente cultivado no mercado financeiro estadunidense.
Mas então, o que afinal são os empregos verdes? De forma geral, eles podem ser definidos como "trabalhos na agricultura, indústria, P&D, serviços administrativos e gerais que contribuem substancialmente para a preservação ou para a restauração da qualidade ambiental" (UNEP et al., 2008, p. 3). No decorrer desse trabalho é feita também uma contribuição original e relevante: incluir o emprego decente como condição necessária para o emprego verde. Isso é de grande valor, pois implica dizer que nem todo emprego ambientalmente sustentável seria um emprego verde, era preciso que fosse um emprego não precarizado. O caso dos catadores de resíduos das grandes cidades brasileiras e suas condições de trabalho é o melhor exemplo de ofício de alto impacto ambiental, porém muitas vezes distante do conceito de "emprego decente". Qualquer política pública que pretenda estimular a criação de empregos verdes, pelo conceito criado pelo PNUMA e pela OIT, deve ter em conta que esses empregos devem ser dignos e não precarizados.
Essa publicação de referência ainda discorre sobre outros elementos centrais acerca dos empregos verdes. Dentre eles estão os "tons de verde", isto é, a gradação existente entre os tipos de trabalhos verdes em termos de sua contribuição para o meio ambiente. Aborda a mudança no modelo de consumo, o que se tornaria, mais tarde, as bases para a definição de Economia Circular. E, finalmente, o documento traz uma série de setores econômicos de destaque onde empregos verdes podem prosperar, tais como na construção civil, em energia, agricultura e transporte, com estimativas de quantos empregos haveria. Não obstante, nessa obra não se encontra uma metodologia clara ou pelo menos uma sistemática bem definida sobre como mensurar o quantitativo de empregos verdes através de critérios e classificações de mercado de trabalho já estabelecidos.
Ato contínuo, em outra publicação da OIT, Muçouçah (2009) recupera os conceitos da publicação sobre empregos verdes para realizar um estudo detalhado sobre o tema no Brasil. O autor tem por objetivo responder questões sobre o quantitativo total desses empregos no país, seus principais setores, as regiões onde eles eram mais numerosos etc. Para isso, foi preciso conectar as definições de empregos verdes às classificações e bases de mercado de trabalho usualmente utilizadas, tais como a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) e a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS).
Chegou-se ao total de 2,6 milhões de empregos verdes pela classificação adotada, o que representa 6% dos quase 40 milhões de empregos formais do país registrados pela RAIS de 2008. Há de se destacar dois pontos: o pioneirismo desse estudo, pois lançou as premissas de como mensurar a quantidade de empregos verdes formais brasileiros; e também a qualidade e disponibilidade dos dados do mercado de trabalho nacional, que permitiu que um estudo desse tipo fosse realizado para os empregos formais. Ademais, a RAIS permite que esses levantamentos sejam feitos não só no nível nacional, mas também estadual e municipal, possibilitando análises regionalizadas, comparativas e setorializadas das atividades econômicas verdes (MUÇOUCAH, 2009).
Quando se trata de habilidades e qualificações verdes, uma série de publicações de organismos internacionais foi lançada com o intuito de estabelecer os critérios sobre o que seriam essas qualificações, notadamente entre 2010 e 2011. O "Skills for Green Jobs in Brazil" traz o resultado da consulta a entidades de referência do país sobre o tema, de modo a definir um consenso geral sobre o que seriam essas habilidades (CARUSO, 2010). Por sua vez, a OCDE, em uma publicação sobre empreendedorismo ("SMEs, Entrepreneurship and Innovation"), também destaca as qualificações verdes como uma das habilidades relacionadas ao papel desempenhado pelos empreendedores (OCDE, 2010).
A OIT sintetizou toda a discussão lançando o documento "Skills for Green Jobs — A Global View", com o levantamento sobre os conceitos de habilidades verdes de países abrangidos pelos estudos realizados no Brasil, na China, na União Europeia, dentre outros. A partir desse relatório, a discussão passou a enfatizar as competências necessárias para viabilizar a transição para economias de baixo carbono. Outro argumento central é que a transformação ecológica não criaria apenas novas ocupações "verdes", mas alteraria profundamente ocupações já existentes, exigindo processos contínuos de requalificação profissional, adaptação curricular e aprendizagem ao longo da vida (STRIETSKA-ILINA et al., 2011).
Mas por que são citadas tantas publicações relevantes sobre o tema sem que seja posta aqui, até agora, uma definição clara e concisa do que seriam as qualificações e as habilidades verdes? Trata-se de um conceito dinâmico que foi sendo construído ao longo de várias publicações e que se tornou mais bem definido a partir do estabelecimento de padrões nacionais e regionais de qualificações (o que se entende como conhecimentos, habilidades e atitudes). O Quadro Europeu de Qualificações (QEQ), por exemplo, foi aprovado em 2008, enquanto o quadro brasileiro entraria em vigência somente em 2020. Desta forma, diferentemente do conceito de empregos verdes, o debate ainda não estava suficientemente maduro para uma sistematização mais geral no começo dos anos 2010.
Se podemos escolher uma definição, a OCDE afirma que as qualificações verdes são "habilidades específicas e necessárias para adaptar produtos, serviços ou operações para atender a ajustes, requisitos ou regulamentos destinados a conter as mudanças climáticas ou a se adaptar ao impacto que elas já estão causando" (OCDE, 2010, p. 166, tradução nossa). Posteriormente, organismos como a própria OCDE aprofundaram essa abordagem ao deslocar a análise dos setores econômicos para as tarefas e competências desempenhadas dentro das ocupações, desenvolvendo conceitos como green-driven occupations e abordagens baseadas em tarefas. Assim, o debate internacional evoluiu de uma lógica predominantemente setorial para uma perspectiva centrada em competências, mobilidade ocupacional, desigualdades territoriais e políticas de transição justa, reconhecendo que a sustentabilidade passou a representar uma transformação estrutural transversal de praticamente todo o mercado de trabalho.
No Brasil, o mesmo fenômeno ocorreu: o foco saiu da mensuração setorial de postos de trabalho sustentáveis para discussões mais amplas sobre competências profissionais, inclusão socioprodutiva e transição justa. Instituições como o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) passaram a desenvolver estudos sobre reindustrialização verde, transição energética, hidrogênio verde, indústria sustentável e formação profissional para a economia de baixo carbono. Mais recentemente, o debate brasileiro passou a incorporar temas como desajustes territoriais de competências, vulnerabilidade ocupacional e planejamento regional da transição climática, aproximando-se das abordagens internacionais mais recentes (DIEESE; CUT, 2025; IPEA, 2024; SENAI, 2012).
É preciso destacar que as publicações mencionadas são as principais referências dessa temática. A despeito de não serem tão recentes, suas discussões permanecem atuais e respaldam o debate contemporâneo. Outro ponto importante é que, apesar de haver setores específicos onde os empregos verdes são prevalentes ou onde qualificações verdes são mais urgentes, as possibilidades existentes em termos de ocupações e qualificações podem abarcar variados níveis de renda, faixa etária e gênero. Várias competências consideradas verdes, por exemplo, têm caráter transversal, podendo estar presentes em setores não ligados diretamente à adaptação climática. Assim como, ao se referir aos empregos verdes, pode-se estar tratando de diversos níveis de qualificação, desde o sócio de uma startup de reflorestamento até um profissional de jardinagem.
Referências
CARUSO, Luiz Antonio Cruz. Skills for green jobs in Brazil. Geneva: International Labour Office, 2010. (Background country study). Disponível em: https://www.ilo.org/publications/skills-green-jobs-brazil. Acesso em: 13 mai. 2026.
DIEESE; CUT. Estudo: Empregos Verdes 2025. São Paulo: DIEESE/CUT, out. 2025. Disponível em: https://www.cut.org.br/noticias/cut-e-dieese-apontam-precarizacao-e-informalidade-nos-empregos-verdes-no-brasil-80d6. Acesso em: 1 maio 2026.
INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA). Boletim Regional, Urbano e Ambiental. Rio de Janeiro: Ipea, n. 33, dez. 2024. ISSN 2177-1847. DOI: 10.38116/brua33. Disponível em: https://repositorio.ipea.gov.br/handle/11058/16277. Acesso em: 1 maio 2026
MUÇOUÇAH, P. S. Empregos verdes no Brasil: quantos são, onde estão e como evoluirão nos próximos anos. Brasília: Organização Internacional do Trabalho, 2009. Disponível em: https://www.ilo.org/brasilia/publicacoes/WCMS\_229625/lang--pt/index.htm. Acesso em: 1 maio 2026.
ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT (OECD). SMEs, entrepreneurship and innovation. Paris: OECD Publishing, 2010. Disponível em: https://www.oecd-ilibrary.org/industry-and-services/smes-entrepreneurship-and-innovation\_9789264080355-en. Acesso em: 1 maio 2026.
RITTEL, Horst W. J.; WEBBER, Melvin M. Dilemmas in a general theory of planning. Policy Sciences, Dordrecht, v. 4, n. 2, p. 155–169, jun. 1973. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/4531523. Acesso em: 1 jun. 2026.
SERVIÇO NACIONAL DE APRENDIZAGEM INDUSTRIAL. Departamento Nacional. Ações do SENAI para o desenvolvimento sustentável. Brasília: SENAI/DN, 2012. 60 p. (Cadernos Setoriais Rio+20). Disponível em: https://static.portaldaindustria.com.br/media/filer\_public/fd/44/fd44e2a2-f481-4d44-8f3f-91faf46ef112/20131003104837523130u.pdf. Acesso em: 20 maio 2026.
STRIETSKA-ILINA, Olga; HOFMANN, Christine; DURÁN HARO, Mercedes; JEON, Shinyoung. Skills for green jobs: a global view: synthesis report based on 21 country studies. Geneva: International Labour Office, 2011. Disponível em: https://www.ilo.org/publications/skills-green-jobs-global-view. Acesso em: 20 maio 2026.
UNEP; ILO; IOE; ITUC. Green jobs: towards decent work in a sustainable, low-carbon world. Nairobi: United Nations Environment Programme, 2008. Disponível em: https://www.ilo.org/publications/green-jobs-towards-decent-work-sustainable-low-carbon-world. Acesso em: 1 maio 2026.
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